Indústrias agregam valor à produção de algodão em Mato Grosso

O caminho percorrido pelo algodão mato-grossense até as confecções inclui desvios para outros estados e até países. De pluma a peça de vestuário, essa rota traçada pela matéria-prima produzida em Mato Grosso, campeão nacional na cotonicultura, pode ser encurtada com a verticalização da produção.

Atualmente nos municípios onde a produção de algodão é mais abundante são mantidas algumas etapas do processo têxtil. Há algodoeiras, fiações, tecelagens e confecções. Neste ramo, 15 empresas asseguram incentivo fiscal do governo estadual. Os empreendimentos estão localizados em Primavera do Leste, Cuiabá, Campo Verde, Jaciara, Rondonópolis, Nova Mutum e Lucas do Rio Verde.

Para o secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso (Sedec), Carlos Avalone, a transformação da matéria-prima pode ser estimulada com políticas específicas para o setor. Enquanto vigorou o Programa de Incentivo à Cultura do Algodão de Mato Grosso (Proalmat) voltado à indústria, a atividade têxtil expandiu com investimentos privados, assim como a cotonicultura. “Quando o Proalmat Indústria foi modificado, em 2003 até 2007, aconteceu um movimento de migração maior das empresas para o Prodeic (Programa de Desenvolvimento Industrial e Comercial de Mato Grosso) e assim diminuiu a vontade de investir no setor têxtil”.

Vigente desde 1997, quando foi instituído pelo ex-governador Dante de Oliveira (falecido), o Proalmat incentivou a produção de algodão. Em 2006, o programa foi prorrogado por mais 10 anos pelo então governador Blairo Maggi (PP) e novamente foi renovado pelo atual governador Pedro Taques (PSDB). Com o Proalmat, Mato Grosso deu um salto na produção da fibra: de 2% para 70% do volume nacional.

Expansão que perpetua, inclusive, com crescimento de 21,1% na produção mato-grossense este ano, quando serão colhidas 1,224 milhão de toneladas de algodão em pluma no Estado, segundo estimativa divulgada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Na safra 2016/2017 foram colhidas 1,011 milhão (t) do produto. A cada temporada agrícola os produtores investem em novas tecnologias para garantir a qualidade da fibra, afirma o presidente da Associação dos Produtores de Algodão de Mato Grosso (Ampa), Alexandre Schenkel.

Com esse cuidado é crescente a presença da pluma brasileira no mercado internacional. Até pelo aumento da produção local interessa aos cotonicultores mato-grossenses contar com mais compradores. Atualmente, a produção mato-grossense de algodão é rateada em 50% para o mercado internacional e 50% para o mercado interno. O percentual destinado ao consumo doméstico atende entre 65% e 75% da demanda brasileira de algodão em pluma, detalha o presidente da Ampa. O restante é suprido por outros entes federados que investem na cotonicultura.

Schenkel acrescenta que os produtores sabem que as indústrias têxteis nacionais não estão fazendo investimentos e há ociosidade nas plantas como reflexo da economia, após a recessão. Em Rondonópolis, por exemplo, a unidade fabril da Santana Têxtil tenta retomar a fiação e tecelagem, após paralisar as atividades após entrar em recuperação judicial, explica o sócio-proprietário Marcos José dos Santos.

Empresas do ramo foram afetadas pela elevação dos preços do algodão, após a diminuição na produção mundial decorrente da crise econômica mundial nos anos de 2010 e 2011 e posterior retração do consumo dos produtos têxteis. A recessão da economia brasileira em 2015 pressionou ainda mais o consumo. “No nosso caso, além da crise, houve o problema de falta de pessoal qualificado. Chegamos a treinar 3 mil pessoas e no auge das operações empregávamos mil”, relembra.

Paralisada há 3 anos, quando foi desenquadrada do Prodeic, a empresa busca novos sócios para reabrir as portas da indústria em Rondonópolis. No município, a Têxtil Bezerra de Menezes (TBM) também paralisou temporariamente as operações de fiação em janeiro de 2016 e retomou aos poucos a produção em 3 turnos, afirma o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico de Rondonópolis, Milton Luiz de Araújo. Os setores industriais têm investido mais nas áreas de produtividade, competitividade, qualidade e flexibilidade, segundo o presidente da Ampa. Visam atender o mercado consumidor de forma rápida e imediata.

Como o varejo não quer acumular estoques, faz toda diferença para a indústria estar próxima dos pontos de consumo, o que é um complicador para qualquer planta que venha a se instalar em Mato Grosso já que o mercado consumidor é pequeno, observa Alexandre Schenkel. Outro agravante é o custo da energia elétrica para a indústria têxtil. Por esses motivos, os cotonicultores acreditam mais no elo da indústria da confecção, que não demanda grandes investimentos e está concentrada nas micro e pequenas empresas.

“Em 2017, visitamos polos têxteis do Nordeste e do Sul do país percorrendo várias indústrias do setor, entre fiações, tecelagens, confecções e centros de distribuição de vestuário de moda, uniformes profissionais, cama, mesa e banho. O foco principal da visita foi ter informações sobre a qualidade de fibra exigida por máquinas cada vez mais modernas e rápidas para atender a um processo sofisticado de produção nas várias etapas da indústria têxtil”.

Cotonicultores mato-grossenses estão aptos a produzir mais e fornecer pluma de qualidade, mas percebem que a instalação e permanência de outros elos da cadeia produtiva do algodão no território estadual depende de outros fatores como políticas públicas de incentivo fiscal e disponibilidade de energia elétrica de qualidade e a preços competitivos. Como forma de incentivar o setor têxtil em Mato Grosso, a empresária do ramo de confecção Claudia Fagotti defende a desoneração de maquinários e a estruturação de Arranjos Produtivos Locais (APLs). “Dessa forma são interligados todos os elos da cadeia produtiva”, sugere.

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